Criando a capital do mundo
“A história do mundo é contada pela biografia de grandes líderes”, disse Thomas Carlyle, historiador do século passado. Ou na realidade seriam a conjunção de fatores políticos, econômicos, tecnológicos e sociais que criam um ambiente propício à ação transformadora de grandes personalidades? Os líderes moldam a história, ou a história cria os líderes ?
Independente do veredito, é fascinante notar o impacto de ações visionárias ao longo do tempo. Poucos casos são tão emblemáticos como a transformação de Nova Iorque na atual “capital do mundo”, consequência direta da construção do canal Erie no século 19. Foi uma obra ambiciosa, arriscada e considerada impossível por muitos na época, mas que deu à cidade uma dianteira no comércio e nas finanças que ela não perdeu até hoje, mais de 180 anos depois.
Nova Iorque sempre foi um importante porto e centro de comércio, mas no início do século 19 o principal porto atlântico dos EUA era a Filadélfia, com Boston disputando o segundo lugar com Nova Iorque. Naquela época as montanhas Allegheny, parte da cadeia dos Apalaches, eram uma grande barreira de acesso ao meio-oeste americano, terreno fértil para plantações, minérios e madeira, valiosos para o comércio interno e para exportação. O transporte de produtos entre os centros comerciais de Buffalo, na região dos lagos, e Nova Iorque era realizado através de carroças, sendo caro e durando semanas.
Projetos para acelerar o transporte e criar uma via fluvial entre a região produtora do meio-oeste e a costa leste existiam desde o século 18, mas costumavam ser arquivados pelo enorme escopo da empreitada. Foi necessária a visão do então governador do estado de Nova Iorque, DeWitt Clinton, para achar o melhor caminho: construir um canal ligando Buffalo, situado na parte leste do lago Erie, até a cidade de Albany, no rio Hudson, que tinha ligação direta e navegável com a cidade de Nova Iorque. As mercadorias seriam escoadas através de balsas, carregadas no oeste, naveagadas até Albany através do canal, depois descendo pelo Hudson até o porto atlântico.
DeWitt era um visionário com capacidade política e de execução ímpar. Foi prefeito da cidade de Nova Iorque por três turnos consecutivos, de 1803 a 1815. Entre outras coisas, implementou o padrão “matriz” de ruas em Manhattan, tão conhecido atualmente. Em 1817 de DeWitt tornou-se governador do estado de Nova Iorque, e capitaneou a construção do canal, batizado de “canal Erie”. Líder de visão, enxergou de longe a capacidade de transformação de longo prazo que uma obra como essa poderia ter, em palavras proféticas da realidade atual de Nova Iorque:
“As an organ of communication between the Hudson, the Mississippi, the St. Lawrence, the Great Lakes of the north and west and their tributary rivers, it will create the greatest inland trade ever witnessed.”
…
“The city will, in the course of time, become the granary of the world, the emporium of commerce, the seat of manufactures, the focus of great moneyed operations and the concentrating point of vast disposable, and accumulating capital.”
…
“And before the revolution of a century, the whole island of Manhattan, covered with inhabitants and replenished with a dense population, will constitute one vast city.”
DeWitt Clinton enfrentou pesada resistência ao projeto do canal Erie, tendo financiamento federal negado pelo então presidente Thomas Jefferson, que acreditava que o projeto era desperdício de dinheiro público. Já como governador, iniciou-a com dinheiro estadual em 1817, financiando-a no mercado financeiro. Sua obstinação contra todas as resistências levou o canal Erie a ser conhecido como “Clinton’s folly” (”o erro de Clinton”) durante sua construção.
Não era à toa que o projeto era desacreditado. Era de uma escala e logística absurdas para os padrões da época. O canal percorreria uma distância de 580 kilômetros, o equivalente à distância entre São Paulo e Belo Horizonte. Até então, o maior canal construído no país era 36 vezes menor, com apenas 16 kilômetros. Incrivelmente, quando o planejamento foi iniciado, não havia sequer uma escola de engenharia no país, tampouco um engenheiro civil formado! O engenheiro-chefe da obra, Benjamin Wright, era um advogado auto-didata que aprendeu na prática tudo que precisava. Wright é reconhecido como o pai da engenharia civil americana, pela quantidade de novatos que tutorou ao longo da obra. Com exceção de alguns pontos onde foi necessário o uso da pólvora para retirar pedra, todos os 580 kilômetros do canal de 13m de largura por 1m de profundidade foi fruto de, literalmente, manpower e horsepower, na sua maioria de imigrantes irlandeses e alemães.
O canal foi concluído em 1825, dentro do orçamento e 3 anos antes do prazo previsto, e foi um enorme sucesso. O tempo para transportar bens de Buffalo para Nova Iorque caiu de 24 dias para 8 dias, enquanto o custo por tonelada caiu de $100 para meros $10. O investimento retornou em pouco tempo, com o fluxo de comércio crescendo incrivelmente: em 1829 foram transportados 3640 cargas de trigo pelo canal; Em 1837 este número chegou em 500.000 cargas, e quatro anos depois, em 1841, alcançou 1 milhão. Em apenas 15 anos, Nova Iorque tornou-se o porto e centro de comércio mais movimentado do país, operando mais cargas que a soma de Boston, Baltimore e Nova Orleans. A população da cidade cresceu de 123 mil em 1820 para quase 700 mil apenas 30 anos depois, em 1850.
A artéria de comércio que o canal representou catapultaram a cidade para uma era de crescimento e concentração de poderio e riqueza nunca vistos, colocando-a à frente de cidades como Boston e Filadélfia. O canal também desenvolveu culturalmente o estado, com a influência progressiva dos milhares de imigrantes que fixaram residência no estado como resultado das obras do canal. Nova Iorque passou a carregar pela primeira vez a alcunha de “Empire State”.
A partir de 1860, com o crescimento das ferrovias, o canal foi gradualmente perdendo força no transporte de bens. Mas o seu impacto já estava sedimentado: Nova Iorque estava caracterizada como centro comercial e financeiro, e todas as grandes linhas de ferrovia atendiam-na, como ponto focal.
O canal Erie, “o erro de Clinton”, contra todas os argumentos, probabilidades e incertezas, foi o fator mais importante em tornar a cidade de Nova Iorque o centro de comércio do país. Na sequência inevitável da riqueza do comércio, amadureceu sua vocação financeira, tornando-se o pólo das finanças do país e, talvez inevitavelmente, do mundo, tal qual encontramos-na hoje. A vitalidade, riqueza e cultura da Nova Iorque de 2006 podem ser diretamente traçadas às atitudes e visão do conjunto de pessoas lideradas por DeWitt Clinton.
Os líderes moldam a história, ou a história cria os líderes ?
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